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quinta-feira, 10 de março de 2011

Insônia


Um dia sem festas sucedeu o carnaval sem festas...
Com olhos abertos na madrugada, Fernando Pessoa novamente me traduz:


(...)
Não durmo, jazo, cadáver acordado, sentindo, 
E o meu sentimento é um pensamento vazio.
Passam por mim, transtornadas, coisas que me sucederam
— Todas aquelas de que me arrependo e me culpo;
Passam por mim, transtornadas, coisas que me não sucederam
— Todas aquelas de que me arrependo e me culpo;
Passam por mim, transtornadas, coisas que não são nada,
E até dessas me arrependo, me culpo, e não durmo.

Não tenho força para ter energia para acender um cigarro.
Fito a parede fronteira do quarto como se fosse o universo.
Lá fora há o silêncio dessa coisa toda.
Um grande silêncio apavorante noutra ocasião qualquer,
Noutra ocasião qualquer em que eu pudesse sentir.
(...)
Tenho sono, não durmo, sinto e não sei em que sentir.
Sou uma sensação sem pessoa correspondente,
Uma abstracção de autoconsciência sem de quê,
Salvo o necessário para sentir consciência,
Salvo — sei lá salvo o quê...

Não durmo. Não durmo. Não durmo.
Que grande sono em toda a cabeça e em cima dos olhos e na alma!
Que grande sono em tudo excepto no poder dormir!

Ó madrugada, tardas tanto... Vem...
Vem, inutilmente,
Trazer-me outro dia igual a este, a ser seguido por outra noite igual a esta...
Vem trazer-me a alegria dessa esperança triste,
Porque sempre és alegre, e sempre trazes esperança,
Segundo a velha literatura das sensações.

Vem, traz a esperança, vem, traz a esperança.
O meu cansaço entra pelo colchão dentro.
Doem-me as costas de não estar deitado de lado.
Se estivesse deitado de lado doíam-me as costas de estar deitado de lado.
Vem, madrugada, chega!
(...)
Álvaro de Campos, in "Poemas"
Heterónimo de Fernando Pessoa



segunda-feira, 7 de março de 2011

Noite de Carnaval

Carnaval - Di Cavalcanti


É carnaval! Optei pela reclusão e uns poucos amigos...
É tempo de estudos! Converso com os livros e bebo vinho...
A chuva dá uma trégua, a lua se faz ver por entre as nuvens, versos antigos escapam da gaveta em metamorfose:

O orvalho, que umedece e perfuma o capim, minhas costas, pernas e cabelos, torna essa agradável brisa noturna um pouco fria...
Ofuscado pelo brilho das estrelas, respiro a atmosfera impregnada de felicidade...
Sou transportado ao topo da jabuticabeira, onde os frutos tem sabor de antigas férias e o perfume dessa noite...
O disparar do cavalo, que ora causou espanto, agora me faz flutuar no eterno...
Os grilos acompanham meu devaneio, tocando, com os anjos de uma igreja familiar, harpas que soam como noites na praia...
As ondas têm a temperatura dessa noite e me arremessam de um lado para o outro confundindo os sentidos...
Passado e presente convergem no perfume dessa noite, que passo a me esforçar para sentir...
- Allah-lá-ô, ô ô ô ô ô ô !!!!!!
- Maldito folião!!!!
Seu berro ou meu piscar de olhos afastou as estrelas...
Elas fugiram para bem alto deixando minhas costas molhadas e coçando...

sexta-feira, 4 de março de 2011

Sobre Instinto, Razão e Preservação



O cinza, a chuva e as horas têm me acompanhado nos primeiros dias dessa empreitada.
Longe do trabalho e da academia, deveria aproveitar o ensejo para adquirir ao menos uma porção da enxurrada de saber técnico, passaporte para minhas pretensões.
No entanto, sigo tentando superar a morte de Deus e abandonar a náusea que me persegue. Leio Nietzsche. Quero ser super-homem!
Da leitura veio a inspiração para esse post. Escrevi um tanto sobre razão e preservação, mas concluí que minhas palavras não fariam jus à lucidez do filósofo alemão e do trecho abaixo colacionado,  digno da leitura atenta.


"Depois de por muito tempo ler nos gestos e nas entrelinhas dos filósofos, disse a mim mesmo: a maior parte do pensamento consciente deve ser incluída entre as atividades instintivas, até mesmo o pensamento filosófico; aqui se deve mudar o modo de ver, como já se fez em relação à hereditariedade e às “características inatas”. Assim como o ato de nascer não conta no processo e progresso geral da hereditariedade, também “estar consciente” não se opõe de algum modo decisivo ao que é instintivo – em sua maior parte, o pensamento consciente de um filósofo é secretamente guiado e colocado em certas trilhas pelos seus instintos. Por trás de toda lógica e de sua aparente soberania de movimentos exitem valorações, ou, falando mais claramente, exigências fisiológicas para a preservação de uma determinada espécie de vida. Por exemplo, que o determinado tenha mais valor que o indeterminado, a aparência menos valor que a “verdade”: tais avaliações poderiam, não obstante sua importância reguladora para nós, ser apenas avaliações-de-fachada, um determinado tipo de niaiserie [tolice], tal como pode ser necessário justamente para a preservação de seres como nós. Supondo, claro, que não seja precisamente o homem a “medida de todas as coisas”...". (Friedrich Nietzsche. Além do bem e do mal. São Paulo: Companhia das Letras, 2005)

quinta-feira, 3 de março de 2011

Chove. Há Silêncio

Pintura: René Magritte, Golconde


Dia chuvoso na capital paulistana!
Tudo parece me remeter à obra acima e ao poema abaixo...

Chove. Há silêncio, porque a mesma chuva
Não faz ruído senão com sossego.
Chove. O céu dorme. Quando a alma é viúva
Do que não sabe, o sentimento é cego.
Chove. Meu ser (quem sou) renego...

Tão calma é a chuva que se solta no ar
(Nem parece de nuvens) que parece
Que não é chuva, mas um sussurrar
Que de si mesmo, ao sussurrar, se esquece.
Chove. Nada apetece...

Não paira vento, não há céu que eu sinta.
Chove longínqua e indistintamente,
Como uma coisa certa que nos minta,
Como um grande desejo que nos mente.
Chove. Nada em mim sente...
Fernando Pessoa, in "Cancioneiro"

Oppenheim, sua Xícara Peluda e o Santo Daime

Meret Oppenheim  'Object'.  Fur-lined cup, saucer and spoon. 1936

Enquanto vasculhava o aplicativo do MoMA em meu celular, deparei-me com esse objeto fantástico criado por Meret Oppenhein.
Por razões ocultas (ou nem tanto), tal obra me remeteu a uma experiência igualmente fantástica vivida no ano passado: o Santo Daime. Acredito que o assunto seja digno desse segundo post, tanto pela beleza da obra, tanto pela recordação, tanto pelo exercício terapêutico que é a escrita...
Inicialmente, vale esclarecer que essa xícara de chá forrada com pele talvez seja o objeto mais notório do Surrealismo. Poucos sabem que sua perversidade sutil foi inspirada por uma conversa entre a artista, Pablo Picasso e a fotógrafa Dora Maars em um café parisiense.
Picasso, admirando a pulseira forrada com pele de Oppenheim, afirmou que qualquer coisa poderia ser coberta com o material, ao que Oppenheim respodeu: “mesmo essa xícara e colher de chá”. Pouco depois, quando convidada por André Breton a participar da primeira exposição surrealista dedicada a objetos, Oppenhein comprou os itens em uma loja de departamentos e os apresentou cobertos com a pele de uma gazela chinesa.
Além das referência sexuais e políticas implicadas nesse pequeno objeto côncavo e coberto por pelos, a obra tira vantagem das diferenças de prazeres sensoriais: os pelos podem ser prazerosos ao toque, mas certamente repelem a língua.
Pois bem... Ainda que servido em um copo plástico, o chá de gosto amargo e pungente que tomei no último ano também repelia a língua. Não obstante, propiciou uma experiência sinestésica, mística, singular e surpreendente da qual não me arrependo.
Cumpre dizer que o Santo Daime reúne elementos cristãos, da tradição espírita europeia, indígenas e africanos, e inclui a ingestão do líquido feito a partir dos ingredientes constituintes da ayahuasca, bebida sagrada utilizada pelos incas e por várias tribos da região amazônica.
Confesso que, ao participar da cerimônia, esperava meramente enriquecer meu arcabouço cultural e antropológico. Imaginava que a experiência alucinógena seria um tanto despropositada e nada teria de genuinamente transcendental. Fui surpreendido por visões celestiais e uma perspectiva extremamente crua e lúcida sobre mim mesmo.
    • Foi, deveras, metafísica?
    • Não vem ao caso...
Seguem os versos, escritos à época, que sintetizam a vivência:

Essa noite me visitou um anjo como o da capela do colégio.
Fascinado como outrora, busquei a mim mesmo em sua imagem luminosa.
Não encontrei!
Suas costas eram mais largas, o olhar mais doce e a voz mais fluida.
Notei que nas mãos trazia um diapasão dourado. Meteu-lhe em minha fronte tirando uma nota grave.
Entendi que preciso ser menos grave.



quarta-feira, 2 de março de 2011

Seja bem-vindo, curioso leitor!

Recollection of Mortefontaine
Camille Corot (1796-1875)

Nesse dia cinzento, em que nada amadurece e sequer o cajueiro doura, caiu-me na vida um raio de sol: criei esse espaço que pôs fim à solidão e melancolia reinantes num final de tarde chuvoso. Não sei bem o que com ele pretendo e se a ele darei continuidade. Não sei se alguém jamais o lerá. 
Quem sabe um dia, nele, eu me revele...
Por ora, dado o pouco tempo de que disponho, compartilho a epifania experimentada por meu compadre Riobaldo:

(...)um dia, num curtume, a faquinha minha que eu tinha caiu dentro dum tanque, só caldo de casca de curtir barbatimão, angico, lá sei. - “Amanhã eu tiro...” - falei, comigo. Porque era de noite, luz nenhuma eu não disputava. Ah, então, saiba: no outro dia, cedo, a faca, o ferro dela, estava sido roído, quase por metade, por aquela agüinha escura, toda quieta. Deixei, para mais ver. Estala, espoleta! Sabe o que foi? Pois, nessa mesma tarde, aí: da faquinha só se achava o cabo... O cabo – por não ser de frio metal, mas de chifre de galheiro. Aí está: Deus... Bem, o senhor ouviu, o que ouviu sabe, o que sabe me entende...” (Guimarães Rosa – Grande sertão: veredas)